Morre cantor e compositor Pedro Ortaça, aos 83 anos
Autor de sucessos como "Timbre de Galo" e "Bailanta do Tibúrcio", artista faleceu nesta sexta-feira
O timbre de galo silenciou. O último Tronco Missioneiro partiu. Aos 83 anos, o cantor e compositor Pedro Ortaça morreu na madrugada desta sexta-feira (29), em Ijuí, na Região Noroeste.
Segundo a família, Ortaça sofreu complicações após passar por cirurgia de amputação de uma das pernas. Ele sofreu uma parada cardiorrespiratória no início da madrugada e outras duas por volta das 4h.
Nos últimos anos, o artista enfrentou diversos problemas de saúde, incluindo muitas internações para tratar quadros de pneumonia. Ele também passou por cirurgia de ponte de safena no final de 2021.
O cantor deixa a esposa, Rose, e três filhos — Gabriel, Marianita e Alberto —, além de netos. Ortaça e a família estavam residindo em Ijuí desde março de 2025 para que ele pudesse realizar tratamento de diálise no hospital. Em janeiro, o cantor esteve internado na unidade para tratar um edema pulmonar, doença que ocorre quando há excesso de líquido no pulmão.
O velório será em Ijuí, informou a família. Também está prevista uma cerimônia em São Luiz Gonzaga, nas Missões, sua terra natal.
Sempre com orgulho de falar do Rio Grande do Sul e das Missões, Ortaça imortalizou o seu nome no cancioneiro gaúcho com músicas como Timbre de Galo, Bailanta do Tibúrcio, Queixo Duro, entre outras. Ele era o último Tronco Missioneiro — identificação que inclui Noel Guarany (1941-1998), Cenair Maicá (1947-1989) e Jayme Caetano Braun (1924-1999).
Em agosto do ano passado, lançou a última música, Pena Guarany, ao lado do filho Gabriel. A canção homenageia os 400 anos das Missões, celebrados neste ano.
Juntos, o quarteto ajudou a forjar uma nova identidade na música regionalista, trazendo críticas sociais e valorizando a história do Estado. Essa denominação surgiu a partir do título de um disco de 1988, lançado pela USA Discos, que reunia os quatro — embora a parceria e amizade entre eles já tivesse sido consolidada décadas antes.
A trajetória de Pedro Ortaça
Ortaça nasceu no Pontão de Santa Maria, 1º distrito do município de São Luiz Gonzaga, em 29 de junho de 1942. O gosto pela música vem do berço: o avô, Quintino Martins dos Santos, era um gaiteiro.
Os pais também, como ele descrevera, "arranhavam": a mãe com a cordeona e o pai com o violão. O cantor costumava lembrar dos dois tocando e sentia muita saudade.
Foi durante a infância em Pontão de Santa Maria que Ortaça conheceu a Bailanta do Tibúrcio, que inspiraria um de seus maiores sucessos. Ele lembra que era uma reunião de vizinhos, que se divertiam tocando música e dançando.
— Os pais colocavam as crianças para dormir em um quartinho, enquanto ficavam confraternizando. Mas eu sentia tanta curiosidade, que espiava pelas frestas da parede. Olhava aquele baile e a música tomando conta do salão e me inspirava, ficava muito alegre com isso — lembrou Ortaça em entrevista a Zero Hora, em 2023.
Ele começou a cantar no Colégio Senador Pinheiro Machado, em São Luiz Gonzaga, entre 10 e 12 anos. A professora reunia todos os alunos de roupa guarda-pó para entoar o hino. Quando cantava, Ortaça sentia algo diferente.
Porém, ele se criou trabalhando. Quando tinha 15 ou 16 anos, foi para São Borja trabalhar em uma granja de arroz. Nunca esqueceu dos galpões que existiam nas arrozeiras, com gente de tudo que era rincão.
Pelos galpões, Ortaça começou a se desenvolver artisticamente. Sempre gostou de tocar e cantar, sem pensar em viver disso. Tudo veio natural.
— Comecei nos bailes de campanha, nas bailantas, nas reuniões de amigos, nas canchas de bocha, nos galpões da nossa terra. Esse é o jeito que a pessoa desenvolve o dom sem estudar — relatou. — Sempre sentei nos fogos de chão, com meus amigos, e escutei as pessoas mais velhas. Foi assim que meu dom despertou cada vez mais.
Com Noel, Cenair e Jayme, ele estabeleceu uma relação de amizade. "Um confiava no outro, um defendia o outro", como destacou a Zero Hora. Assim como os parceiros, Ortaça ressalta que sempre buscou cantar não só a "beleza do Rio Grande do Sul", mas também a justiça.
— Não havia uma cultura na música daqui de falar sobre os nossos ancestrais, os índios, os negros, os pobres, a história do Rio Grande. A maioria só versava sobre dançar baile e senhores da terra. É importante cantar as injustiças que vemos pelo mundo, que são muitas — explicou. — A ambição e o dinheiro são coisas que afetam a alma do vivente. A gente sabe que as grandes guerras que estão no nosso mundo, gastando milhões e milhões em armas, poderiam alimentar o povo da Terra tranquilamente.
Além da música, chegou a apresentar o programa Orgulho Gaúcho, na Rádio Missioneira, de São Luiz Gonzaga. A atração era transmitida aos domingos.
Ortaça recebeu, em 2006, o Prêmio Vitor Mateus Teixeira pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, na categoria de melhor cantor do ano. Quatro anos depois, foi condecorado com a Medalha do Mérito Farroupilha também pelo legislativo gaúcho. Foi eleito personalidade do século em São Luiz Gonzaga, além de ter sido reconhecido como Mestre das Culturas Populares Brasileiras pelo Ministério da Cultura.
Recentemente, o legado de Ortaça vinha sendo celebrado em homenagens: em 2024, foi eleito patrono dos Festejos Farroupilhas. Em abril de 2025, recebeu o título doutor honoris causa da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Em seus últimos anos de vida, Ortaça diminuiu o ritmo de suas apresentações. Em entrevista concedida em abril do ano passado ao programa Playlist, da Rádio Gaúcha, o cantor comentou que continuava compondo e cantando sempre quando desse oportunidade e era convidado.
Dois anos antes, ele descreveu à reportagem de Zero Hora o seu sentimento ao subir no palco:
— Às vezes, chego ao palco meio abichornado. Mas daí sinto aquele povo que sempre senti na minha vida, com todo carinho e aplauso. Saber que estão aplaudindo a música que faço, a causa que eu defendo, me faz crescer no palco. E canto tudo que tenho que cantar. Isso vem de dentro, dos ares, não sei de onde.
Entrevista à Rádio Gaúcha
Em abril do último ano, Pedro Ortaça foi personagem do Playlist, programa da Rádio Gaúcha. Na ocasião, o Último Tronco Missioneiro falou sobre os problemas de saúde que enfrentava e destacou a importância da música missioneira.
— Essa música que criamos um dia, há mais de 50 anos, está enraizada no povo do Rio Grande, e isso é importantíssimo. Porque fala de justiça, fala de alegria, fala de satisfação e denuncia alguma coisa errada que existe no nosso país — comentou sobre os Troncos Missioneiros.
Fonte: GZH Passo Fundo
