Estados Unidos confirmam aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros

Lista de itens atingidos pela sanção ainda será divulgada. Proposta de tarifaço foi anunciada em 1º de junho, após investigação sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil

Os Estados Unidos confirmaram a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros. Em 1º de junho, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propôs impor uma taxa de 25% sobre diversos itens exportados para os Estados Unidos, após uma investigação sobre supostas práticas comerciais desleais, como o Pix. A informação foi confirmada em coletiva de imprensa nesta quarta-feira (15), de acordo com o jornal Estado de São Paulo.

A lista de produtos afetados ainda será divulgada. No entanto, conforme o g1, itens como petróleo, café, carne bovina, aeronaves e celulose não serão incluídos na relação da sobretaxa. A medida entra em vigor no dia 22 de julho.

O prazo para a Casa Branca decidir se confirmaria ou não o novo tarifaço se encerraria nesta quarta-feira. Desde o início de junho, o governo federal atuou para tentar reverter o tarifaço.

Em nota (leia abaixo a íntegra) enviada a Zero Hora na noite desta quarta, a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) lamentou a decisão anunciada pelo governo dos Estados Unidos e disse que a "a medida amplia as barreiras ao comércio bilateral e traz novos desafios para a indústria gaúcha, especialmente para segmentos com forte presença nas exportações ao mercado norte-americano, como armas e munições, madeira, calçados e tabaco".

Justificativas EUA

O governo norte-americano argumenta que algumas práticas do Brasil restringem o comércio com os Estados Unidos. Um dos principais alvos é o Pix, segundo o g1.

No entendimento do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o sistema de pagamentos instantâneo causa prejuízos para empresas de pagamento norte-americanas.

O USTR também cita decisões da Justiça brasileira sobre a regulamentação de plataformas digitais e empresas de tecnologia norte-americanas, aponta que o Brasil mantém tarifas especiais para países como México e Índia e aponta falhas no combate ao desmatamento ilegal.

Ainda conforme o g1, o governo norte-americano também cita falhas no combate à pirataria, critica decisões relacionadas à Operação Lava Jato e alega falta de acesso do etanol dos Estados Unidos ao Brasil.

Tentativa de diálogo um dia antes da confirmação

Uma última tentativa de diálogo foi feita nesta terça-feira (14), em uma reunião com representantes dos EUA. Após a ocasião, o governo do Brasil emitiu uma nota (leia abaixo a íntegra) em que classificou a medida como injusta: 

"Na reunião de hoje (terça), foi reiterado o caráter injusto da aplicação das recomendações já divulgadas, seja a resultante da Seção 301 específica para o Brasil, de sobretaxas de 25%, seja a de 12,5% (Seção 301 – trabalho forçado) aplicável a outras 59 economias."

Na sexta-feira (10), o presidente Lula reuniu ministros no Palácio do Planalto para tratar do tarifaço, segundo a CNN. Na reunião, os ministros disseram acreditar que as tarifas seriam confirmadas, já que falas públicas recentes do chefe do USTR, Jamieson Greer, apontaram para esse cenário. 

— Tenho conversado com os brasileiros. Temos tentado negociar. Acredito que ainda há uma grande distância entre nós; portanto, vocês verão uma decisão final sobre o Brasil muito em breve, pois temos um prazo legal que se encerra em 15 de julho — disse Greer em entrevista na quinta-feira (9).

Trocas de farpas entre Lula e Flávio

O presidente Lula criticou, no dia 2 de julho, o rival eleitoral Flávio Bolsonaro por pedir aos Estados Unidos para adiar até depois das eleições presidenciais de outubro uma eventual aplicação de novas tarifas ao Brasil. Lula atribui a imposição de tarifas a movimentações de Flávio junto à Casa Branca, o que o senador nega. 

"Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da pátria", publicou Lula no X, após Flávio pedir ao USTR a suspensão da aplicação das tarifas.

O senador havia sugerido que "adiar a implementação para depois das eleições" evitaria que o tarifaço fosse interpretado "como uma tentativa de influenciar o resultado" da votação. 

Após receber Lula em maio, Trump reuniu-se com Flávio e o elogiou. Dias depois, os Estados Unidos designaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), os dois maiores grupos brasileiros ligados ao narcotráfico, como organizações terroristas e anunciaram as possíveis tarifas, duas medidas criticadas pelo governo brasileiro.

Já no dia 7 de julho, Flávio pediu ao governo Trump para não impor as tarifas ao Brasil porque, em sua opinião, elas beneficiariam Lula. Em uma audiência pública em Washington, no USTR, Flávio se apresentou como defensor do setor exportador brasileiro.

— Cada tarifa adicional está beneficiando o governo que supostamente se pretende pressionar — afirmou.

No mesmo dia, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, afirmou que o governo brasileiro seguia nas tratativas com autoridades norte-americanas para evitar a imposição das novas tarifas.

Um ano após, novas tarifas

A confirmação das novas tarifas vem um ano depois de um tarifaço imposto ao Brasil por Donald Trump. No dia 9 de julho de 2025, uma carta endereçada a Lula anunciava que o governo americano iria impor uma tarifa adicional de 50% aos produtos brasileiros vendidos no mercado dos EUA.

No texto, Trump saía em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, que à era réu por tentativa de golpe de Estado, e usou a expressão "caça às bruxas".

Meses depois, em novembro, os EUA anunciaram a retirada da tarifa de 40% de alguns produtos brasileiros. Poucos dias antes, o governo Trump já havia reduzido as tarifas de importação de cerca de 200 produtos alimentícios, para vários países. No caso do Brasil, a alíquota havia caído de 50% para 40%.

Linha do tempo

  • 2 de abril de 2025

No chamado “Dia da Libertação”, quando anunciou uma série de tarifas recíprocas contra diversos países, Donald Trump estipulou uma alíquota de 10% sobre produtos brasileiros.

  • Julho/agosto de 2025

Após tentativas de negociações, Trump propõe uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros. Em paralelo, o USTR abre uma investigação contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A tarifa entra em vigor em agosto, mas com uma lista de exceções que retirava cerca de 700 produtos da cobrança adicional.

  • Fim de 2025 e início de 2026

O tarifaço passa por negociações, revisões e questionamentos jurídicos nos Estados Unidos.

  • 1º de fevereiro de 2026

Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou as tarifas impostas por Trump a diversos países e determinou a reversão da medida.

  • 1º de junho de 2026

O USTR conclui a investigação aberta pela Seção 301 e aponta práticas brasileiras que considera prejudiciais aos interesses comerciais americanos. O órgão propõe uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.

  • 15 de julho de 2026

Prazo para o governo americano decidir sobre a aplicação da nova tarifa.

Nota da Fiergs:

"Porto Alegre, 15 de julho de 2026 - O Sistema FIERGS lamenta a decisão anunciada nesta quarta-feira (15) pelo governo dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A medida amplia as barreiras ao comércio bilateral e traz novos desafios para a indústria gaúcha, especialmente para segmentos com forte presença nas exportações ao mercado norte-americano, como armas e munições, madeira, calçados e tabaco.

Para o presidente do Sistema FIERGS, Claudio Bier, a decisão compromete a competitividade das empresas, reduz a previsibilidade dos negócios e pode gerar impactos sobre investimentos, emprego e renda no Rio Grande do Sul. "É um retrocesso nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos e impõe mais um desafio à indústria brasileira e gaúcha. É fundamental que o governo brasileiro mantenha as negociações com as autoridades norte-americanas para buscar a reversão dessa medida e ampliar a lista de produtos contemplados por exceções”, avalia.

Em caso de manutenção das medidas, defende a implantação de medidas compensatórias. “Ao mesmo tempo, é necessário preparar políticas públicas de apoio aos setores mais afetados, nos moldes das iniciativas adotadas no ano passado, com linhas especiais de financiamento e iniciativas para auxiliar as empresas impactadas. O momento exige uma atuação coordenada, técnica e diplomática para preservar a capacidade competitiva da indústria brasileira e minimizar os efeitos sobre a economia e o emprego", ressalta o presidente do Sistema FIERGS."

Nota do MDIC divulgada na terça-feira (14):

"NOTA À IMPRENSA – 5ª REUNIÃO COM REPRESENTANTE DE COMÉRCIO DOS ESTADOS UNIDOS

Hoje, no final da tarde, as equipes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – MDIC, do Ministério das Relações Exteriores – MRE e da Assessoria Especial do Presidente da República, mantiveram a quinta reunião de alto nível com o Representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, desde 07 de maio, quando os dois Presidentes decidiram estabelecer um grupo de trabalho dedicado ao diálogo comercial.

Na reunião de hoje, foi reiterado o caráter injusto da aplicação das recomendações já divulgadas, seja a resultante da Seção 301 específica para o Brasil, de sobretaxas de 25%, seja a de 12,5% (Seção 301 – trabalho forçado) aplicável a outras 59 economias.

Como já demonstrado pelo governo brasileiro, nenhuma das razões apontadas na Seção 301 justificam a aplicação das tarifas recomendadas.

Cumprindo a orientação do Presidente Lula, reiterou-se que a aplicação de qualquer sobretaxa se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado.

O prazo para o anúncio da medida e da lista de bens expostos à recomendação terminará amanhã, 15 de julho."

Fonte: GZH Zero Hora

 

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